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quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Sobre ser uma empata: ter o sentimento do mundo e a esperança dentro de mim

Quando nasci, ganhei um pingente de anjinho do meu padrinho, um brinquinho de minha avó e uma caixa de Pandora do mundo. É uma caixinha que veio dentro de mim e que, infelizmente, eu não sei abrir e fechar - é quase como se ela tivesse vida própria. Quando ela está aberta, eu sinto em mim todos os males do mundo. É como diz Drummond de Andrade: essa caixinha abre e, então, tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo. Eu sou capaz de sentir a dor de alguém apenas por olhar em seus olhos. Eu sou capaz de captar os sentimentos dos olhos e o que olham os sentimentos. Dói em mim ver a dor do outro, mesmo que o outro não tenha consciência da própria dor. E aí, eu quase que sou tudo e todos. Quando essa caixa está aberta, eu quase sou a puta que vende o corpo por alimento e por não ter chance, que se acostumou tanto com isso de ser usada e jogada fora que já quase acredita mesmo que seja um objeto. Quando essa caixa está aberta, eu quase sou o gay que não é aceito e que não consegue se aceitar, que tenta não ser o que é, que se acha errado, fora do lugar. Quando essa caixa está aberta, eu quase sou a mulher que apanha todo dia e que não vai embora porque tem filhos e dependência financeira. Quando essa caixa está aberta, eu quase sou o menino sem pai que perdeu o avô e não tem mais ninguém, que chora sozinho com um animal de estimação, mas que tem que continuar sendo forte pro resto da família. Quando essa caixa está aberta, eu quase sou a gorda que vomita após toda refeição, que ouve que precisa emagrecer por questão de saúde, que é vista como preguiçosa, descuidada, desgrenhada. Quando essa caixa está aberta, eu quase sou a negra de cabelo crespo que ouve que racismo não existe no Brasil, mas que também ouve que toda negra fode bem. Quando essa caixa está aberta, eu quase sou alguém num corpo que não é seu, com o qual não se identifica, sendo obrigada/o a viver em padrões impostos por esse corpo e querendo fugir do que disseram que sou. Quando essa caixa está aberta, eu quase sou a mãe-de-santo apedrejada e chutada, porque "chuta que é macumba". Quando essa caixa está aberta, eu quase sou o idoso que é um estorvo para a família, que é rechaçado e jogado num asilo, e que fica lá, sozinho, até o resto dos seus dias, com os dedos dos pés cheios de teias de aranha. Quando essa caixa está aberta, eu sou uma criança com leucemia, e também sou seus pais e sua dor. Quando essa caixa está aberta, eu quase sou um menino de rua, invisível a não ser que se trate de suspeita de roubo, faminto e em constante fuga (de quê?). Quando essa caixa está aberta, eu quase sou um alguém que não tem expectativas, não tem vontade de viver, que entra em pânico por coisas que qualquer um acha bobeira, que precisa de calmante, de remédio, que é transtornado e não é entendido (mas eu quase entendo você, viu? Estou aqui para que compartilhe a sua dor). Quando essa caixa está aberta, eu posso quase ser qualquer um que sofre de qualquer dor profunda, seja lá de onde venha essa dor. Eu quase viro eu mesma uma dor sem fim, quando essa caixa está aberta.
Mas, se você conhece um pouquinho sobre essa caixa de Pandora que eu tenho dentro de mim, sabe que, também quando ela está aberta, sobra uma coisinha lá no fundo. Uma estrelinha faiscante, cheia de uma luz dourada, que me faz me sentir eternamente agradecida por poder ser dona dessa caixa. Se você conhece a história, sabe que na caixa ainda está a esperança. A última que morre. Lá no fundo da caixa. Como um tesouro enterrado. Assim como eu posso ser a dor mais pura, eu posso ser a esperança mais profunda. Como dona de uma caixinha dessas, é isso que eu represento para o mundo: eu vim trazer a esperança. Ser um empata, é sofrer junto com o mundo, mas também é trazer a ele uma luz única e irradiante. Não é tratar dessa dor que sinto como se fosse minha, não é desejar protagonismo numa luta, mas é estender uma mão a quem sofre e oferecer ajuda. É me conectar com sua dor, poder ver por sua perspectiva, sem julgamentos. É poder dizer: estou contigo, pelo simples motivo de que realmente estou.
Sim, tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo. Mas, dentro de mim, eu tenho essa estrelinha. Duas mãos e uma estrelinha são o bastante para lidar (e iluminar) o sentimento do mundo.

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