Pages

sábado, 30 de maio de 2015

Paris se prepara para retirar 45 toneladas de "cadeados do amor"

Ela leu o título em voz alta, baixa, média, pelo menos umas dez vezes. E, embora a altura da voz mudasse, sua tonalidade tinha a mesma incredulidade e seus olhos pareciam igualmente assustados todas as vezes que entoou as palavras. Ah, os cadeados do amor... Ainda se lembrava de quando seu amor foi trancafiado em um desses. Ainda se lembrava da ponte, do olhar e do trancar. Do estancar de si.
Os cadeados começaram a pesar e a ponte ameaçou ruir. Hora de se livrar desse peso. Hora de partir as amarras. Libertar-se dos grilhões.
O amor não devia pesar. A ponte não devia ruir.
De onde é que tiraram que o amor pode ser um cadeado?
De onde é que tiraram que a gente tem que prender um sentimento tão bonito?
E o que é que esses tais prisioneiros fizeram com as chaves de suas próprias prisões, eu me pergunto. Jogaram no ar, no mar, no horizonte, ou guardaram no peito, pendurado no pescoço? Jogaram de encontro com a lua, ou trancafiaram (também a chave?) dentro de algum baú?
As pessoas têm tanto medo assim de amar que tudo tem que ser assim tão guardado?
Sentimento não pode fluir - é perigoso, tem que estancar. Carinho não pode só sorrir, tem que declarar. E pra declarar tem que trancar - tem que ter cadeado em Paris pra selar o amor. O amor tem que ser selado, guardado, trancafiado dentro da gente. Amor livre? Que isso, o amor é compromisso a ser mantido. Amor é posse e tu és minha e eu sou teu e nosso sentimento é um cadeado.
Mas aí começa a pesar e a ponte ameaça ruir. E agora? Amor livre? Não, amor com posse.
Bem, sendo assim, não posso.
Porque pra mim - e também pra ela que leu o título - a ponte que é ideal. O sentir. E a minha ponte é que não vai cair por uma questão de propriedade! Amor livre? Livre-se do resto. Amor só pode ser livre - a liberdade que define o amar, o resto é compromisso.
Sobre nossa personagem: o que eu não contei sobre ela é que, apesar do tom da voz e do olhar, os lábios sorriam. Sua voz entoava a liberdade, assim como o título da tal reportagem. Ela puxou o cordão que cruzava o seu peito - determinação em lugar de dor. Foi à janela. O sol se punha. Jogou a chave pelos ares, de encontro ao crepúsculo. E então toda a sua alma pôde apreciar o submundo de Ártemis, o arquétipo da Lua, o mundo interior em que sombra e luz se confundem, cheio de lacunas e penumbras. À luz da Lua, sua alma uivou como loba livre. Sua vulva desabrochou como rosa - avermelhada e com respingos de sereno.
Destrancou a alma. Os sentimentos estancados borbulhavam. 
Seus seios sem chave exaltavam: o amor é livre, meu bem.

Nenhum comentário:

Postar um comentário