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sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

De casulo à lua: um processo



Alguns processos são feitos em vista do fim. O meu é feito pra sair do começo - esse lugar opaco e intransigente, onde tudo flutua oco e nada acontece. E sair do começo significa embarcar numa jornada surpreendente - é essa jornada que me apetece.
Antes, era como se eu estivesse no marasmo, observando um sol que cruzava a linha do horizonte, mas não se punha. Os mistérios da noite se achegavam a mim, mas eu era incapaz de cruzar a linha do consciente. Eles se achegavam, se acomodavam, me perturbavam, e não se mostravam. Estavam ali, com certeza, zunindo, mas quando eu os procurava querendo dissecá-los, já não estavam. 
Foi quando uma borboleta branca me despertou do marasmo. Voou por entre meus cachos, meus braços, minhas pernas. Se insinuando aos meus olhos e ao meu sexo, à minha mente e à minha voz. Querendo fazer borbulhar em mim tudo o que não estava desperto. Ela se insinuava delicada, não trazendo tumulto e confusão, mas uma curiosidade que dava pontadas no meu coração. E eu comecei a persegui-la. Primeiro sem muito jeito com os movimentos (imagine, se eu que estive tanto tempo parada conseguiria de começo dançar a dança de uma borboleta!), e fui adquirindo leveza. Primeiro, era um trabalho árduo, uma tarefa difícil. Depois, era só sorriso. Hoje acho que até peguei a manha: o gingado e a delicadeza da dança se insinuam no meu corpo como se eu mesma tivesse asas e fosse borboleta. Será que antes eu era casulo?
Persigo meus objetivos como quem persegue uma borboleta. Não quero tê-la entre os dedos, quero aprender seus movimentos, dançar sua dança. Gosto de vê-la livre, bela pelos ares. E quero também eu ser livre, bela pelos lares que a vida quiser pôr em meu caminho. Que os sentimentos sejam isso: lares e não prisões. E que os ares que eu voe não me deem sermões. Que me deem descobertas e, quem sabe, corações. Mas agora o que importa é meu coração: é o meu voar, o meu dançar, o meu mergulhar profundo nos mistérios dessa noite que eu sou.
O sol estático que eu achei que se punha, hoje brilha à pino. E eu sou sua lua - refletindo seu brilho. 

domingo, 29 de novembro de 2015

LUTA (assim na Terra, como no céu)



O asfalto é muito quente pra pisar;
A lama é muito espessa pra arriscar;
A igreja não é acolhedora pra rezar;
E até esse Deus distante parece se revoltar.

Mudança!, a natureza implora.
Empatia!, a mente explora.
União!
Pede alguém que mora
No meio dessa cisão.

O mundo parece um lugar violento,
Mas a gente tem voz, força e talento
Pra tirar essa situação do relento.
E não pense que lutamos contra moinhos de vento!

A natureza do ser humano
Roga por um plano
Que seja diferente.
Que não deturpe nossa mente
Com um medo evidente.

Porque o medo emudece,
Quando a gente tem que gritar.
O chão ele aquece,
Para que não ousemos pisar.
O coração ele endurece,
Para que sejamos incapazes de lutar.
Mas a alma se enfurece,
E a gente resolve mudar.

Ao contrário do que o medo quer,
A gente dá as mãos, a gente se une,
E aí a gente consegue pisar em lugar qualquer
Que a gente quiser.
Asfalto, lama, o que vier.
A gente caminha pra mudança
E consegue como quem dança
Fazer de um jeito que a injustiça balança
E com a luta a empatia nos alcança.
A gente vence o medo e faz a diferença
Pra acabar com essa miséria que parece de nascença.

Assim na Terra, como no céu.
Do micro pro macro, existe um réu.
E daqui a gente faz um escarcéu
Para que a vida tenha mais gosto de mel.

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

To do list de segunda-feira


Ver a vida com mais leveza
Descartar a certeza
Não reconhecer o definitivo
Conjugar os dias no infinitivo
E deixar tudo pairando no ar
Para que se possa ser mar

Não programar
Não remediar
Não culpar
Mesmo que se sinta sem lar

Deixar a beleza inventar
Um novo refrão
Pra essa estranha canção
Que nada pode esfriar
Mesmo que pareça em vão

Dar passos sem sentido
Inventar um novo ruído
Arrumar um projeto louco
e logo trocá-lo por outro
Para a agenda não ser ácida
Mesmo que fique muito plácida

Dançar pra lá
Com o vento pra cá
Os pés no chão
E a cabeça claro que não
O disco tem que ser trocado
Mesmo que o fim pareça malogrado

É que na vida não tem maldição
Tem só essa tradição
Meio neurótica
De seguir numa estrada caótica
Uma só direção
Mesmo que abra-se mão da emoção

Eu vou de pés descalços e já não ligo se piso no granizo ou no asfalto, na relva ou na selva, na grama ou na lama, na praia ou no breu. Eu piso. Porque embaixo dos meus pés o chão se cria ao meu passo. E em meu próprio embalo eu me embaraço, já que quando de antemão espero a escuridão, pro oposto me leva o alazão da vida, desde que eu defina meu coração como ponto de partida.

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Dia de outra vi(n)da

Lágrimas de álcool envenenadas
dores que não foram sanadas
na penumbra entre morte e vida
com desequilíbrio ela lida
com a melancolia meio esquecida
meio que sendo relida
sua antiga investida
agora se revolta
se volta
contra ela
moça singela
E de dor revestida
a lembrança vem travestida
de morte
Na minha mente foi um corte
que me levou pra nova sorte
construída pela quase morte
me fez mudar o enredo
desse segredo

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

O sangue da lua marciana



Eu to sangrando o sangue sagrado
que também a lua sangrou.
E, se esse sangue escorre de meu ventre,
é porque a lua transita no signo marciano
como no dia que nasci,
e vem me dizer para que combata.
O sol pede equilíbrio e bom senso,
mas a lua não acata.
E, nessa dança entre luz sibilante
e sombra brilhante,
eu sou convidada a olhar contente
a minha própria dualidade latente.
Do breu, pode nascer uma ariana
guerreira de coração e vulva virgens,
que sangra o sangue da lua e que,
longe de temê-lo,
agradece por tê-lo
escorrendo em sua coxa marcada
da luta antes travada
com a escuridão.
Essa guerreira não anda mais em sofreguidão.
Ela dança na noite como dançaria no dia,
porque resolveu ter a ousadia
de fazer do próprio coração moradia.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Primavera

Acordei com a luminosidade do sol da manhã a bater gentilmente na janela. Ao abri-la, contemplei um novo mundo: era primavera. O céu exibia um azul quase que mágico, sem nuvens, iluminado pelo brilho irreverente do sol que, majestoso, espalhava seus raios com tranqüilidade, como criança sonolenta que estica os braços ao acordar. O bocejo delicado do bebê era a brisa fresca que vinha saldar-me a fronte. As folhas bem verdes como que dançavam ao vento e seu singular farfalhar se misturava com a melodia dos pássaros. As flores adornavam a visão e dela eram símbolo: cores e fragrâncias não faltavam.
Descobri-me grata pela sensibilidade de que fui dotada. Agradeci por ter olhos para ver, ouvidos para ouvir, mente para entender, coração e alma para sentir. Agradeci pela sensação libertadora que me inundava o espírito e, com um sorriso sincero desenhado nos lábios, fui conferir o que era feito da vela verde e do incenso, ambos acesos no dia anterior.
Da vela restou a parafina endurecida, mas eu sabia que aquela luz estonteante e quase mágica de áurea esverdeada irradiaria em minh’alma durante toda a primavera, concedendo-me o magnetismo que me é singular e a força e esperança tão necessárias ao meu espírito. Lembro-me de minhas palavras ao proclamar aquela oração que se destinava, acima de tudo, à minha tão cara Natureza: “Conceda-me o que me é necessário, pois sabes melhor do que eu”. Sei, portanto, estar em boas mãos. Sei também que a essência do incenso perfumará meus dias: as tristezas e as alegrias. Do pó que restou, retorna a lembrança das brumas perfumadas que me envolveram na ocasião e daquela sensação de que o espírito se desprendera do corpo e agora voava, entre as estrelas que cobriam a noite clara, em direção à lua que, como sempre, me sugava aos seus encantos.
Era, enfim, primavera. A tempestade cessara e agora vinha o arco-íris: com toda sua graça e exuberância, tecer de cores infindas nossas vidas. Assim como desabrocham as flores, abriam-se os corações ao Amor mais puro – essa força incompreensível que nos move, que é a essência da vida e de tudo que se há de viver. As almas preparavam-se para encontrar a luz da Verdade e desvendar as brumas do Mistério. Mas era principalmente o amor que, junto com as rosas, desabrochava.
Eu, qual fosse flor, desabrochava-me também.
Era, enfim, primavera.

Escrito no dia 21/09/2012

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Rosas, pérolas e diamantes


Quinze anos. Hoje completo quinze primaveras, tantas outras alegrias, quantas flores quanto possível. E as lágrimas transformam-se senão em brilhantes, ao menos em pérolas. Guardo tais preciosidades no coração, e elas engrandecem minha candidez – as pérolas e as rosas. As brancas e os diamantes adornam a alma, aumentam meu brilho e meu perfume. Minha essência vai, a cada dia, ficando mais rica – de conhecimento (e aqui entram as tristezas e dores, os sofrimentos que nunca são em vão), experiência e felicidades, colecionando amigos, risos e prazeres. Meu magnetismo pessoal cresce proporcionalmente ao número de sorrisos que esboço – e eu aprendi a sorrir, verdadeiramente, apesar dos pesares. Afinal, pérolas e diamantes não são nada mal.
Mas eu gosto mesmo é das flores – as rosas, principalmente. Com suas pétalas suaves que exalam perfume e beleza sem igual, uma delicadeza quase que surreal. Uma pureza inigualável e inegável, contagiante. É a essência que mais me encanta: não lhe parece que inalar tal encanto impregna o espírito de uma magnificência estranha aos homens e tão comum na natureza? A mim parece. E com minhas rosas, faço uma chuva de pétalas.
É claro que pérolas e diamantes também são necessários e queridos. Mas não esses diamantes brutos que adornam dedos, ouvidos, pescoços e pulsos. Quero aqueles lapidados que ornamentam a alma. Quero as pérolas que custaram tanto para sair da ostra. A dor e as lágrimas que nos engrandecem. E, enlaçando minh’alma com seu brilho fatídico, as pedras preciosas vão se acumulando, assim vou eu ganhando facetas harmoniosas e contrastadas.
O meu Eu vai, dessa forma, se tornando equilibrado e inconstante, cheio de ímpetos e de rotinas. Eu sou única, como somos todos. E a minha singularidade vai além da aparência e da personalidade. A consciência de tal não mais me amedronta: agora me anima.
Eu sou única, com tudo o que me faz diferente.
Pela primeira vez, não digo, grito: “Eu amo ser diferente”.

Escrito no dia 16/09/2012.

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Sobre ser uma empata: ter o sentimento do mundo e a esperança dentro de mim

Quando nasci, ganhei um pingente de anjinho do meu padrinho, um brinquinho de minha avó e uma caixa de Pandora do mundo. É uma caixinha que veio dentro de mim e que, infelizmente, eu não sei abrir e fechar - é quase como se ela tivesse vida própria. Quando ela está aberta, eu sinto em mim todos os males do mundo. É como diz Drummond de Andrade: essa caixinha abre e, então, tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo. Eu sou capaz de sentir a dor de alguém apenas por olhar em seus olhos. Eu sou capaz de captar os sentimentos dos olhos e o que olham os sentimentos. Dói em mim ver a dor do outro, mesmo que o outro não tenha consciência da própria dor. E aí, eu quase que sou tudo e todos. Quando essa caixa está aberta, eu quase sou a puta que vende o corpo por alimento e por não ter chance, que se acostumou tanto com isso de ser usada e jogada fora que já quase acredita mesmo que seja um objeto. Quando essa caixa está aberta, eu quase sou o gay que não é aceito e que não consegue se aceitar, que tenta não ser o que é, que se acha errado, fora do lugar. Quando essa caixa está aberta, eu quase sou a mulher que apanha todo dia e que não vai embora porque tem filhos e dependência financeira. Quando essa caixa está aberta, eu quase sou o menino sem pai que perdeu o avô e não tem mais ninguém, que chora sozinho com um animal de estimação, mas que tem que continuar sendo forte pro resto da família. Quando essa caixa está aberta, eu quase sou a gorda que vomita após toda refeição, que ouve que precisa emagrecer por questão de saúde, que é vista como preguiçosa, descuidada, desgrenhada. Quando essa caixa está aberta, eu quase sou a negra de cabelo crespo que ouve que racismo não existe no Brasil, mas que também ouve que toda negra fode bem. Quando essa caixa está aberta, eu quase sou alguém num corpo que não é seu, com o qual não se identifica, sendo obrigada/o a viver em padrões impostos por esse corpo e querendo fugir do que disseram que sou. Quando essa caixa está aberta, eu quase sou a mãe-de-santo apedrejada e chutada, porque "chuta que é macumba". Quando essa caixa está aberta, eu quase sou o idoso que é um estorvo para a família, que é rechaçado e jogado num asilo, e que fica lá, sozinho, até o resto dos seus dias, com os dedos dos pés cheios de teias de aranha. Quando essa caixa está aberta, eu sou uma criança com leucemia, e também sou seus pais e sua dor. Quando essa caixa está aberta, eu quase sou um menino de rua, invisível a não ser que se trate de suspeita de roubo, faminto e em constante fuga (de quê?). Quando essa caixa está aberta, eu quase sou um alguém que não tem expectativas, não tem vontade de viver, que entra em pânico por coisas que qualquer um acha bobeira, que precisa de calmante, de remédio, que é transtornado e não é entendido (mas eu quase entendo você, viu? Estou aqui para que compartilhe a sua dor). Quando essa caixa está aberta, eu posso quase ser qualquer um que sofre de qualquer dor profunda, seja lá de onde venha essa dor. Eu quase viro eu mesma uma dor sem fim, quando essa caixa está aberta.
Mas, se você conhece um pouquinho sobre essa caixa de Pandora que eu tenho dentro de mim, sabe que, também quando ela está aberta, sobra uma coisinha lá no fundo. Uma estrelinha faiscante, cheia de uma luz dourada, que me faz me sentir eternamente agradecida por poder ser dona dessa caixa. Se você conhece a história, sabe que na caixa ainda está a esperança. A última que morre. Lá no fundo da caixa. Como um tesouro enterrado. Assim como eu posso ser a dor mais pura, eu posso ser a esperança mais profunda. Como dona de uma caixinha dessas, é isso que eu represento para o mundo: eu vim trazer a esperança. Ser um empata, é sofrer junto com o mundo, mas também é trazer a ele uma luz única e irradiante. Não é tratar dessa dor que sinto como se fosse minha, não é desejar protagonismo numa luta, mas é estender uma mão a quem sofre e oferecer ajuda. É me conectar com sua dor, poder ver por sua perspectiva, sem julgamentos. É poder dizer: estou contigo, pelo simples motivo de que realmente estou.
Sim, tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo. Mas, dentro de mim, eu tenho essa estrelinha. Duas mãos e uma estrelinha são o bastante para lidar (e iluminar) o sentimento do mundo.

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Sobre balões e medos


Eram milhões de balões e, como todos os balões, no começo, eles não passavam de um plástico sem graça, sem vida, irrisórios. Esses eram ainda mais bobinhos: não tinham cor. Que balões eram esses, totalmente desprovidos de alegria? Esperavam pela magia. Quando viria ela preencher-lhes com o sopro da vida?
Os homens, que, ao contrário dos plásticos, tinham alma, encontraram-nos. Não sabiam que eram balões, claro, porque balões ainda nem existiam, mas sentiram despertar dentro de si uma curiosidade irreverente sobre aquilo que viam. Queriam criar e inovar, usar da feitiçaria do conhecimento para construir um sentimento puro que faria voarem aqueles materiaizinhos estranhos.
Contudo, eram humanos e humanos têm, em seu coração, medo. Um medo sufocante do novo; um terror ácido que corrói a vontade e a curiosidade; umas brumas densas de temor que envolvem o coração e cegam a visão; um horror que inutiliza o cérebro.
Não tiveram os homens ao menos a chance de ter um motivo pelo qual amedrontarem-se. Afinal, não puderam dar cor e ver as cores flutuando. Não puderam sentir a emoção de fazer o plástico virar balão – e, depois, o balão virar alegria. Pelo medo de perder o que vinha pela frente, perderam sentimentos singulares.
Perderam o céu azul salpicado de pontinhos coloridos. Perderam o contraste do plástico rosa, amarelo, laranja e verde nas nuvens de um branco tão puro. Perderam os raios solares fazendo com que as cores se acendessem ainda mais – e fazendo ascender dentro dos corações essa alegria que transborda do corpo e da alma. O medo estagnou o sentimento, assim como sempre estagna as pessoas. O medo que veio antes do próprio medo foi o mal dos homens, nessa história e em todas as outras, que não puderam dar vasão à sua criatividade e curiosidade.
No fim das contas, o ser humano não precisa ter por que temer – ele sempre arruma um motivo. Porque não ter medo amedronta mais do que tê-lo. Porque as possibilidades infinitas às vezes levam a uma sensação de possibilidade nenhuma. Porque é difícil criar, por mais que nossa alma clame pela invenção. Porque vislumbrar cores novas é só pra quem tem coragem de temer.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Cisne


A parede está rachada e as rachas todas riscadas de negro têm algo de vermelho, e vão parar num lugar cheio de sangue. Os riscos se convertem em um coração - o centro de tudo, um coração gordo e vermelho. Pulsante ou desenhado, tanto faz, ele é sempre real. Borrado ou sangrando, esse coração está chorando de qualquer maneira. Chorando minhas lágrimas de guache ou meu sangue escasso. Meu coração chora as lágrimas da minha mente e sofre as dores que ela projetou. Não seria mais fácil encarar as mentiras tuas, mente? Mas a parede está rachada e eu mesma estou curvada em sofrimento.
Cansei de lutar e minhas asas não se debatem mais, apenas descansam desconfortáveis em meu corpo triste. Triste toda a minha penugem branca, triste toda eu. Dilacerada por três espadas - três brilhantes espadas com punhos de ouro. E, parece-me, em uma delas espreita uma coruja. Ela grita à minha mente por sabedoria, mas minha mente está muito ocupada pensando e doendo. As espadas se cravam ainda mais em meu corpo desajeitado; o coração chora mais sangue que guache, pois que vejo sangue esparramado por todo o chão - a guache mais borra meus olhos que a parede.
Hoje o mundo me abandona e me deixa à sós com meu sangue, hoje o mundo trai toda a beleza que eu lhe trouxe com a minha graciosidade. Hoje toda a minha candidez é convertida em angústia. Como se eu não fosse forte, como se um cisne como eu não lutasse com ferocidade em frente a uma batalha. Mas agora estou sozinha: eu e minha dor; e eu não tenho ideia de como levar a cabo essa luta. Eu abaixo minhas asas, porque não sei lutar contra meus próprios pensamentos baixos. Eu abaixo a guarda, porque não consigo encarar tudo isso de frente. Sozinha, abandonada com meu maior inimigo: eu mesma. E, enquanto isso, meu coração chora...
Quem criou essas feridas senão eu mesma? Quem cravou essas espadas em mim senão minha mente traidora? Minha própria angústia e dor me trouxeram aqui, e eu ofereci meu coração em sacrifício a mim.
O mundo não me abandonou, o mundo não me traiu. Eu criei a minha solidão como proteção, eu traí a mim arrancando meu coração. O mundo apenas me deu a oportunidade de sangrar - e às vezes o sangramento é necessário para a cura. Essas lágrimas de guache me purificam de toda essa pintura falsa que fiz de mim. O sangue que fica é puro. E eu vou superar a dor, a angústia e a solidão. Vou abrir as minhas longas asas brancas e dançar novamente com um céu limpo e sem rachas.

Ilustração de Stephanie Law (3 de espadas do Shadowscapes Tarot). Texto inspirado no livro de apoio que acompanha o tarot.

segunda-feira, 20 de julho de 2015

A Temperança

De um cálice, para outro. De um cálice, para outro. O prateado, o dourado. O prateado, o dourado. E, de repente, um cale-se! gritado, ordenado, mandado.
- Cuidado, senhora, teu grito enche a Terra de terremotos.
- A Terra é meu domínio e dela cuido eu, cuide tu do teu.
Sem cantar, de preferência - dizia seu olhar. E Íris era realmente boa em escutar. De um cálice, para outro; e agora sem cantar - tudo o que a Senhora ordenar. E a Senhora ordenava coisas com as quais Íris realmente não queria ajudar. Mensagens que ela não tinha vontade de entregar. Mas, de um cálice para outro jorrava o sentimento do mundo, e ela não podia parar. Assim, todas as mensagens que Hera enviava à Terra chegavam com um arco-íris - viessem depois de uma chuva de verão ou de uma tempestade, traziam as cores como brinde. Os Deuses, lá no Olimpo, tinham sorte maior: o sorriso fácil e os gestos meigos da Íris. Íris era a harmonia entre opostos, a bênção de um olhar calmo.
- Temperança, minha Senhora - ela lembrava.
- Vingança, minha Serva - Hera implorava.
Íris, arco-íris; Hera, a terra. Íris toda paz; Hera toda fera. Feita de sete cores e Temperança, Íris é harmonia até mesmo na vingança.

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Sabotagem a uma Imperatriz



Disseram-me que não.
E por que raios iria eu pensar no que disseram?
Disseram-me que não era bom.
E por que raios tenho eu que querer o bom?
Disseram-me que eu era boa.
E por que raios iria eu aceitar tal dom?
Disseram-me que isso magoa.
E, no fundo, eu achava que merecia.

Era feito apenas de matéria, tão impuro.
E minha intuição sabia que era inseguro.
Era o que eu queria, mas era miragem.
E não era o que eu queria, sabotagem.
Meu coração ardia à margem.
O importante era a vulva: sacanagem.

Puta burrice o que eu sentia.
Puta mesmice o que eu vivia.
Puta eu sem minha luz que irradia.
Meu ego sempre me reduz,
Mas eu tenho essa luz.

Sem pregar peças, psique.
Agora, sem verso, digo no talo: eu não vou pro ralo. Eu não sou um galo, pra ficar cantando alegria e morrendo por dentro. Chega de auto-sabotagem. Chega de rima triste. Chega de pensamento surrupiante. Chega de dor sussurrante. Chega de mascarar com alegria o que na verdade é meu espírito gritando, meu instinto inflamando: Não quero o que não é bom! Eu aceito esse dom! Não mereço nada menos que esse tom. Esse tom ameno e feliz, que não ignora a dor, mas se sente merecedor de ser imperatriz.

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Tabu


Fizeram de mim um tabu. Fizeram da minha vagina um segredo - logo ela que me faz querer gritar. Fizeram do meu amor arfante uma luxúria - e eu que achava que amar era tudo de melhor que tinha no mundo. Disseram que eu não poderia me tocar, mas quando disseram já era tarde demais - eu já havia me apaixonado por mim mesma. Fizeram do meu sangue sagrado um pecado, mas me ensinaram a agradecer quando ele viesse. E eu agradeço, mas chamariam-me de herege se eu lhes contasse o porquê. 
Fizeram de mim um tabu, mas não compactuo com ele. Graças às Deusas todas, não sou boa nisso de ser o que querem que eu seja. Graças a Afrodite, Hera e Lilith, amo-me. Toco-me, deliro-me, excito-me. Desato os nós que a mim ataram desde que nasci e, nua dessas - essas sim - superstições, rebolo no envolvente embalo de mim mesma.
Despida dos padrões, o espelho me apetece tanto que não posso - e nem quero - evitar um sorriso que vem do mais fundo da alma. Um olhar delirante de reconhecimento do Sagrado Feminino intrínseco, não em meu corpo, mas no mais fundo do meu ser. Não posso me olhar senão com lascívia, já que represento a mim mesma toda a sensualidade, toda a beleza e engenhosidade própria da natureza. Não posso evitar encher os olhos negros do mistério da luz da lua, nem posso evitar que meu ventre sinta-se digno de ser comparado com a própria terra. Não posso, não consigo, enojar-me do meu sangue. Não posso evitar ser mulher, já que a magia do feminino me possui toda. Como posso, então, evitar tocar-me?
Afrodite ama; Hera traz à luz; Lilith prefere ficar por cima. Eu toco-me. 
Faço-me Deusa ao amar-me e ao reconhecer que ser mulher é, afinal de contas, ser o que quer que seja.
Menina, faça-te Deusa. Despe-te de todo tabu. Torna-te mulher sendo o que és.
Toca-te.

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Quando a insulina dói


O negrume sai do pâncreas,
Se alastra pela alma,
Sobe a garganta,
Quando sai pela boca
É como uma mão
Que arranca o coração.

Mas o coração, persistente,
Não se entrega
Assim tão facilmente
E então carrega
Quase que diariamente
Essa dilacerante sensação.

E o pâncreas...
Junto com a alma,
Junto com a prece,
O pâncreas apodrece.

sábado, 30 de maio de 2015

Paris se prepara para retirar 45 toneladas de "cadeados do amor"

Ela leu o título em voz alta, baixa, média, pelo menos umas dez vezes. E, embora a altura da voz mudasse, sua tonalidade tinha a mesma incredulidade e seus olhos pareciam igualmente assustados todas as vezes que entoou as palavras. Ah, os cadeados do amor... Ainda se lembrava de quando seu amor foi trancafiado em um desses. Ainda se lembrava da ponte, do olhar e do trancar. Do estancar de si.
Os cadeados começaram a pesar e a ponte ameaçou ruir. Hora de se livrar desse peso. Hora de partir as amarras. Libertar-se dos grilhões.
O amor não devia pesar. A ponte não devia ruir.
De onde é que tiraram que o amor pode ser um cadeado?
De onde é que tiraram que a gente tem que prender um sentimento tão bonito?
E o que é que esses tais prisioneiros fizeram com as chaves de suas próprias prisões, eu me pergunto. Jogaram no ar, no mar, no horizonte, ou guardaram no peito, pendurado no pescoço? Jogaram de encontro com a lua, ou trancafiaram (também a chave?) dentro de algum baú?
As pessoas têm tanto medo assim de amar que tudo tem que ser assim tão guardado?
Sentimento não pode fluir - é perigoso, tem que estancar. Carinho não pode só sorrir, tem que declarar. E pra declarar tem que trancar - tem que ter cadeado em Paris pra selar o amor. O amor tem que ser selado, guardado, trancafiado dentro da gente. Amor livre? Que isso, o amor é compromisso a ser mantido. Amor é posse e tu és minha e eu sou teu e nosso sentimento é um cadeado.
Mas aí começa a pesar e a ponte ameaça ruir. E agora? Amor livre? Não, amor com posse.
Bem, sendo assim, não posso.
Porque pra mim - e também pra ela que leu o título - a ponte que é ideal. O sentir. E a minha ponte é que não vai cair por uma questão de propriedade! Amor livre? Livre-se do resto. Amor só pode ser livre - a liberdade que define o amar, o resto é compromisso.
Sobre nossa personagem: o que eu não contei sobre ela é que, apesar do tom da voz e do olhar, os lábios sorriam. Sua voz entoava a liberdade, assim como o título da tal reportagem. Ela puxou o cordão que cruzava o seu peito - determinação em lugar de dor. Foi à janela. O sol se punha. Jogou a chave pelos ares, de encontro ao crepúsculo. E então toda a sua alma pôde apreciar o submundo de Ártemis, o arquétipo da Lua, o mundo interior em que sombra e luz se confundem, cheio de lacunas e penumbras. À luz da Lua, sua alma uivou como loba livre. Sua vulva desabrochou como rosa - avermelhada e com respingos de sereno.
Destrancou a alma. Os sentimentos estancados borbulhavam. 
Seus seios sem chave exaltavam: o amor é livre, meu bem.

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Macho que toma a voz

Olá, bom dia. É... Tipo assim.
Tipo assim.
Assim assado ou de outro jeito
Eu só me importo que é
E que sendo, bom...
Bom dia.
Olá, bom dia.

Mas a pergunta é se...
É que... Mas e se...
A pergunta é.
A pergunta sendo,
então existe questão.
E a questão é se...

Mãos balançam
Olhos para baixo
Não tem olho no olho
Tem pensamento vagando
Pensamento vagabundo
Mente tentando concentrar
E coração nervoso atentando.
Mãos nervosas, olhos sem pupila.

Voz calma que diz: pertinência.
Voz calma que sabe chamar a essência.
Voz calma que se impõe.
Sobrancelha.
Pertinente, sim, fala com pertinência.

Oi, bom dia.
Acordem que hoje é dia.
E o olhar cortante
E a energia penetrante.
E o silencio.
A pergunta nem foi respondida,
mas já que foi formulada...
Aí a questão existe.

Tava tudo bem até aí.
Não bem, mas ok.
Aí o macho resolve ser alfa,
tomar a voz que acostumou
como sendo sua.
Mas era dela.
Ela ela ela ela ela ela.
Ele cortou ela.
Porque ele queria que fosse
ele ele ele ele ele.
Mas o primeiro ela é Ela,
e ele só pode ser macho.

terça-feira, 19 de maio de 2015

Presente

Meu presente nem é físico para caber ou não nessa caixinha,
mas com certeza é mais valioso e com certeza cabe nesse sorriso.
Tento colocar o que sinto em palavras,
mas é inútil – é vago.
E eu não gosto de coisas ocas,
eu não gosto do eco.
 Eu gosto de sentir tudo em sua forma mais pura
– e é isso que faço agora.

Mas como comunicar o que se passa em meu coração?
Como explicar esse aperto bom, essa emoção?
Como explicar essa vontade de gritar
agradecendo o Todo por esse presente tão singular?

Agradecida, sr. Todo!
Mas agradecer não basta.
O Todo pode sentir a minha gratidão
– e isso sim ecoa de uma maneira bonita.
É um sentimento que vai se expandindo
e pode cobrir o meu mundo inteiro.
E, se o Todo sente, não tem porque pôr em palavras.
Não é ele que precisa ser constatado de tudo isso.
Afinal, ele também é tudo isso.

Mas “tudo isso” é o que – fora o Todo que é tudo?
Tudo isso é um sorriso que eu sorrio ao pensar nesse presente.
Tudo isso é o brilho dos meus olhos ao viver esse presente.
Tudo isso são as gargalhadas sem fim que esse presente me obriga a rir.
Tudo isso é o suspiro aliviado ao encontrar esse presente.
Tudo isso é o próprio presente emanando, fortificando.
Tudo isso nem cabe em mim, como pode caber nas palavras?

E é por isso que o sentimento desperto
é tão grande que não me cabe em mim.
Ele transborda.
E talvez essa seja a melhor definição:
Ágape existe – é aquele amor que transborda.
E esse amor é meu presente.
Esse presente é a amizade.

Obrigada, sr. Todo.

sábado, 16 de maio de 2015

Grande pequenez

Apago e deixo de lado o que podia ser grande como um monte. Esqueço, porque não quero a grandeza. Quero o encanto das belas nostalgias, o encanto do pequeno e ínfimo, que faz a diferença que nada de maior nunca pôde. Não quero ser como o gigante que ataca, mas como o anão ágil que recua e evita, até que o outro tropece em seu próprio pé. Quero ser como fada delicada cuja pequenez da fantasia traz o sorriso à criança e a perplexidade ao cético adulto, e cuja magia faz nascer no seio de qualquer alma amor resplandecente. Sim, eu quero ser aquele pequeno brilho que resplandece. Eu não quero ser sol, mas quero ser lua: refletindo e emergindo na noite, como uma guardiã noturna. Quero ser o pequeno botão de flor, e não a grande e voluptuosa rosa vermelha florescida: pois que quero ser delicada e frágil, ainda que cheia de espinhos para me proteger, pois que quero ter sempre a capacidade de desabrochar em sentimentos unos.
E é dessa pequenez que me restituo oceano: e é esta alma pequena que faz-se eterna e infinita. Que escreve, e escrevendo perpetua. Eis aqui a minha aurora, o meu florescer. Eis aqui como me banho de raios dourados, como me inundo de alegria. Eis aqui como faço o meu ser ser mais que um: como viro coletivo e, virando-o, faço-o diferente. Sim, diferente. Eu quero mudar. Eu quero brilhar. E que seja uma pequena mudança: uma palavra, um sorriso. Mas que mude. Que seja um pequeno brilho: um amor, um olhar. Mas que brilhe e que ilumine. E que meus passos pequenos e luminosos possam guiar outros pela escuridão que eu mesma enfrentei, como se fossem vaga-lumes ensandecidos de paixão. Paixão pela vida que surgiu antes de rasgar o ventre de minha mãe, que surgiu antes de meus olhos presenciarem a luz do dia. Paixão pela vida: essa vida maior que é mais do que a existência.
Minha vivência é feita de paixão e é essa a engenhosa grandeza de minh'alma.

domingo, 3 de maio de 2015

O grito da América – sobre como os portugueses não conquistaram o coração de uma mãe

Clara Nunes canta sobre um soluçar de dor que, segundo ela, ninguém ouviu. Eu não estava lá, mas o ouço muito bem até hoje. Seus ecos arrepiam-me os pelos do braço e insinuam lágrimas nos olhos. E tanto faz esse meu sentimento, não devo ser eu o foco das minhas palavras. O foco é o soluçar.
Antes fosse apenas soluçar, eu ouço mesmo é um grito. Um desespero, uma dor tamanha que rasga a entranha daquele que sente.
Eu ouço uma mãe a gritar pelo filho. E eu quase vejo o desespero de seus olhos negros bem abertos. E eu quase sinto a mão que rasgou seu coração tentando rasgar a minha alma. Mas, não, o foco não é o que eu sinto. O foco é o coração dessa mãe – e o canto feroz da perda.
Feroz, selvagem. Existe mesmo o conceito de selvageria quando se trata de amor, de amar? Não seria todo amor meio selvagem e toda perda não despertaria essa ferocidade, essa feracidade, esse grito desolado? Não, não. Os civilizados amam com mais graça – e aceitam a perda com mais desdém. Quisera essa mulher que fosse apenas perda: ela conhecia a morte e sabia que ela aconteceria.
Mas ela não conhecia o homem branco. Ela não conhecia a arma de fogo. Ela não conhecia isso de ser cruel só por ouro. Ela vivia em um sistema de vida tão mais brando, e que tão melhor ao seu coração se adaptava... Esse sistema mudou. Foi invadido. Mas como invadir o coração de uma mãe?
Eles tentaram quebrar seus ídolos. Eles tentaram se fazer passar por deuses – deuses que traziam a mensagem de um Deus estranho, que eles não entendiam muito bem. Eles tentaram despedaçar sua própria psique e seu jeito de ver o mundo. Eles vinham de outro mundo? Ou de outra terra? Outra terra? E por que é que eles descobriram aquilo lá, se essa mãe já vivia lá há tanto tempo? Se seus bisavós tinham bisavós que tinham bisavós que já sabiam que aquele chão existia?
Eles quebraram seus ídolos.
Agora tentavam quebrar seu coração.
Alienar sua liberdade.
Essa mãe não sabia o que era liberdade porque nunca teve oportunidade de conhecer qualquer um de seus antônimos. A liberdade lhe era tão natural que sobre ela não precisava falar, não precisava pensar, não precisava nem saber que ela existia. Ela era livre, exatamente por não entender nada sobre tal conceito. (Nós que somos cheios de amarras é que temos a necessidade de falar o tempo todo sobre essa tal liberdade).
Quando tentaram sujeita-la, ela soube o que era a liberdade, mesmo sem colocar isso em palavras. Como todo o resto que fugia à sua psique, ela sabia que algo estava errado, diferente. Ela sabia que tinha que batalhar por algo.
Ela resistiu. Seus irmãos resistiram. Seus primos resistiram. Seus filhos resistiram.
Por que se submeteriam, afinal de contas? Isso não fazia parte de seu sistema de crenças.
Embora sua inteligência não conseguisse acompanhar tudo o que lhe acontecia, – afinal, seu mundo era outro, era anterior à essa “descoberta” – pôde sentir, em seu mais profundo, a crueldade. Eles queriam escraviza-la, prender sua alma em gaiolas, como faziam aos pássaros. Ela não se rendeu. Eles lhe mataram os filhos.
Em sua frente. Para que visse e se sujeitasse.
Mas ela apenas gritou.
Você pode ouvir seu grito?
Pode imaginar sua dor?
Hoje, um dia depois da comemoração hipócrita feita por brancos que ignoram o que ainda sofrem os poucos que sobreviveram ao genocídio – ou tapam os olhos para tal realidade, porque pensar na dor alheia continua não sendo muito lucrativo –, eu ouço esse grito e tento imaginar sua dor. Apenas tento, porque não sou mãe e nunca conseguiria entrar por definitivo na alma de um nativo e em sua mente, que se projetava de forma tão diferente, por viver de modo tão diferente. Tentando, percebo que o grito dessa mãe ecoa – e não apenas no que restou dessa gente. Ecoa porque a ganância continua a matar crianças sem piedade. Ecoa porque o mundo civilizado ainda não conseguiu abandonar a barbárie. Ecoa, ecoa.
Eu venho, com essas palavras, pedir compaixão – não importa por quem.
Escrevendo, venho fazer-lhes um apelo: que amem. E é agora um sublime sussurrar das memórias dessa mãe que me diz isso: amem, amem, amem!

20.04.2015

quarta-feira, 29 de abril de 2015

A mudança espera que se mude – sobre o caos e algo novo

Inspiro ares parados, atmosfera confortada, quarto fechado de mim mesma. Minhas paredes estão cheias de bolores – nem a umidade faz bem a esse ambiente em que me tranquei. No entanto, esses ares não são pesados. De um tempo para cá – desde que eu comecei a nota-los – eles têm se tornado cada vez mais leves. Talvez que perceber que algo está errado seja o primeiro passo. E está. Há algo por aqui de muito errado. Não é certo sentir o ar tão pesado nas costas e tão tóxico aos pulmões. Não é certo permitir dentro de mim tantos bolores e poeira. Mas, agora, é como se tudo isso flutuasse numa dança desconexa.
Caos. Caos e o sentimento de emergência da mudança. Ah, como é necessário que se mude! Bagunçar a bagunça da qual se é feito, com a qual já se está tão acostumado que até parece o estado normal das coisas, para então ajustá-la. Sim, sinto latente a mudança. Ela está sorrindo para mim quase que assustadoramente, mas eu não tenho mais medo: encaro-a nos olhos insanos e sorrio de volta, lançando o desafio. Ela urra e chacoalha as mãos cheias de unhas compridas, mas depois abaixa a cabeça à minha vontade.
A mudança está aí, esperando que se mude. De olhos baixos, agora que já não a temo. Suave, agora que a vejo como necessária.
Também a bagunça foi necessária ao seu tempo – como poderia eu entender que a ordem era ordeira se não houvesse aquela dorzinha no peito quando eu inspirava aqueles ares? Foi bom, muito bom, ver as heras venenosas subirem altas dentro do meu espaço, pois agora as eras suaves serão bem-vindas e abençoadas da maneira que se deve.
Basta apenas arrancar pela raiz os maus costumes, os pensamentos que me colocam para baixo, as atitudes que não me servem mais. Para a mudança, agora que dela não tenho mais medo, basta apenas que se mude. Ela sorri, agora, complacente.
Com amor, ponho em execução meu plano de reforma. Com amor, esfrego as paredes e tiro o lodo de mim. Com amor, arranco as heras. Com amor, abro a janela – para ver o dia lindo lá fora, para ver a vida linda aqui dentro, para inspirar um ar inspirador. Com amor, deixo a porta aberta para o amor. Com amor, sorrio à mudança. Com amor, amo a mim.