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sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Tinto e tinta no branco


Todos zanzeiam por aí brancos. É uma branquidão que dói o olho e enjoa a vista - enjoa a alma e faz tudo parecer pastoso. Os meus olhos o vinho tinge de confusão. As lágrimas talvez os embacem. Mas é tanto branco misturado com tanto vinho e a confusão fica tanta que tudo só parece pastoso demais. E aí nem sei se choro ou se Yemanjá veio me visitar os olhos - trazer um pouco de azul, odoya! Parece-me que está tudo tão distante que nem com uma lupa eu seria capaz os olhos das pessoas, as almas se escondem no branco. O branco parece conversar com o branco ao meu redor, e eu só espero que o negro da noite os consuma a todos em suas besteiras falantes.
Não sei se estou reclusa ou rabugenta, mas não estou pessimista. Não, certamente não pessimista. Estou feliz em mim - na minha falta de branco. Estou feliz em olhar pra dentro e ter toda uma cartela de cores. Estou feliz em não ter que escolher entre elas. E estou feliz por tudo estar tão distante a ponto do branco ser incapaz de diluir meu colorido. Obrigada pela tinta, caneta, vinho tinto. Obrigada, mãos, por desenharem as palavras com tanta leveza no papel, mesmo que meu coração se tinja tanto e tão rápido e precise tanto vir a tingir a página com a urgência tanta dos embriagados.
Estou reclusa, em meditação. A minha volta, o mundo acontece. Dentro de mim, eu aconteço. Olhos vagando, alma fincando raízes e florindo. Chega de branco! Mil flores, mil cores. Eu quero os amores! Fui tão tingida pelo vinho que hoje quero tingir todo esse branco de escarlate, desejar sem pudores. Parada, meditei em mim e viajei tão longe que pude, enfim, encontrar na mente o carmim. Estática, percorri quilômetros. Enquanto, a minha volta, o mundo borbulha clamores vagos, desejos opacos, vida tão branca... Eu sou explosão de aromas, viajo entre-mundos, tiro da alma um fungo, e ainda nas lágrimas mergulho tão fundo... Afinal, choro ou Yemanjá que veio visitar meus olhos? Minha alma que visitou a mim. Transbordo o mar que encontrei em mim, enfim.
Tinto e tinta. Escrevo e embriago. Parada em voo pleno.
Rojões. 2016. Bom princípio de ano. Quantas cores o ano reserva em seu plano?

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