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segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Dia de outra vi(n)da

Lágrimas de álcool envenenadas
dores que não foram sanadas
na penumbra entre morte e vida
com desequilíbrio ela lida
com a melancolia meio esquecida
meio que sendo relida
sua antiga investida
agora se revolta
se volta
contra ela
moça singela
E de dor revestida
a lembrança vem travestida
de morte
Na minha mente foi um corte
que me levou pra nova sorte
construída pela quase morte
me fez mudar o enredo
desse segredo

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

O sangue da lua marciana



Eu to sangrando o sangue sagrado
que também a lua sangrou.
E, se esse sangue escorre de meu ventre,
é porque a lua transita no signo marciano
como no dia que nasci,
e vem me dizer para que combata.
O sol pede equilíbrio e bom senso,
mas a lua não acata.
E, nessa dança entre luz sibilante
e sombra brilhante,
eu sou convidada a olhar contente
a minha própria dualidade latente.
Do breu, pode nascer uma ariana
guerreira de coração e vulva virgens,
que sangra o sangue da lua e que,
longe de temê-lo,
agradece por tê-lo
escorrendo em sua coxa marcada
da luta antes travada
com a escuridão.
Essa guerreira não anda mais em sofreguidão.
Ela dança na noite como dançaria no dia,
porque resolveu ter a ousadia
de fazer do próprio coração moradia.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Primavera

Acordei com a luminosidade do sol da manhã a bater gentilmente na janela. Ao abri-la, contemplei um novo mundo: era primavera. O céu exibia um azul quase que mágico, sem nuvens, iluminado pelo brilho irreverente do sol que, majestoso, espalhava seus raios com tranqüilidade, como criança sonolenta que estica os braços ao acordar. O bocejo delicado do bebê era a brisa fresca que vinha saldar-me a fronte. As folhas bem verdes como que dançavam ao vento e seu singular farfalhar se misturava com a melodia dos pássaros. As flores adornavam a visão e dela eram símbolo: cores e fragrâncias não faltavam.
Descobri-me grata pela sensibilidade de que fui dotada. Agradeci por ter olhos para ver, ouvidos para ouvir, mente para entender, coração e alma para sentir. Agradeci pela sensação libertadora que me inundava o espírito e, com um sorriso sincero desenhado nos lábios, fui conferir o que era feito da vela verde e do incenso, ambos acesos no dia anterior.
Da vela restou a parafina endurecida, mas eu sabia que aquela luz estonteante e quase mágica de áurea esverdeada irradiaria em minh’alma durante toda a primavera, concedendo-me o magnetismo que me é singular e a força e esperança tão necessárias ao meu espírito. Lembro-me de minhas palavras ao proclamar aquela oração que se destinava, acima de tudo, à minha tão cara Natureza: “Conceda-me o que me é necessário, pois sabes melhor do que eu”. Sei, portanto, estar em boas mãos. Sei também que a essência do incenso perfumará meus dias: as tristezas e as alegrias. Do pó que restou, retorna a lembrança das brumas perfumadas que me envolveram na ocasião e daquela sensação de que o espírito se desprendera do corpo e agora voava, entre as estrelas que cobriam a noite clara, em direção à lua que, como sempre, me sugava aos seus encantos.
Era, enfim, primavera. A tempestade cessara e agora vinha o arco-íris: com toda sua graça e exuberância, tecer de cores infindas nossas vidas. Assim como desabrocham as flores, abriam-se os corações ao Amor mais puro – essa força incompreensível que nos move, que é a essência da vida e de tudo que se há de viver. As almas preparavam-se para encontrar a luz da Verdade e desvendar as brumas do Mistério. Mas era principalmente o amor que, junto com as rosas, desabrochava.
Eu, qual fosse flor, desabrochava-me também.
Era, enfim, primavera.

Escrito no dia 21/09/2012

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Rosas, pérolas e diamantes


Quinze anos. Hoje completo quinze primaveras, tantas outras alegrias, quantas flores quanto possível. E as lágrimas transformam-se senão em brilhantes, ao menos em pérolas. Guardo tais preciosidades no coração, e elas engrandecem minha candidez – as pérolas e as rosas. As brancas e os diamantes adornam a alma, aumentam meu brilho e meu perfume. Minha essência vai, a cada dia, ficando mais rica – de conhecimento (e aqui entram as tristezas e dores, os sofrimentos que nunca são em vão), experiência e felicidades, colecionando amigos, risos e prazeres. Meu magnetismo pessoal cresce proporcionalmente ao número de sorrisos que esboço – e eu aprendi a sorrir, verdadeiramente, apesar dos pesares. Afinal, pérolas e diamantes não são nada mal.
Mas eu gosto mesmo é das flores – as rosas, principalmente. Com suas pétalas suaves que exalam perfume e beleza sem igual, uma delicadeza quase que surreal. Uma pureza inigualável e inegável, contagiante. É a essência que mais me encanta: não lhe parece que inalar tal encanto impregna o espírito de uma magnificência estranha aos homens e tão comum na natureza? A mim parece. E com minhas rosas, faço uma chuva de pétalas.
É claro que pérolas e diamantes também são necessários e queridos. Mas não esses diamantes brutos que adornam dedos, ouvidos, pescoços e pulsos. Quero aqueles lapidados que ornamentam a alma. Quero as pérolas que custaram tanto para sair da ostra. A dor e as lágrimas que nos engrandecem. E, enlaçando minh’alma com seu brilho fatídico, as pedras preciosas vão se acumulando, assim vou eu ganhando facetas harmoniosas e contrastadas.
O meu Eu vai, dessa forma, se tornando equilibrado e inconstante, cheio de ímpetos e de rotinas. Eu sou única, como somos todos. E a minha singularidade vai além da aparência e da personalidade. A consciência de tal não mais me amedronta: agora me anima.
Eu sou única, com tudo o que me faz diferente.
Pela primeira vez, não digo, grito: “Eu amo ser diferente”.

Escrito no dia 16/09/2012.

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Sobre ser uma empata: ter o sentimento do mundo e a esperança dentro de mim

Quando nasci, ganhei um pingente de anjinho do meu padrinho, um brinquinho de minha avó e uma caixa de Pandora do mundo. É uma caixinha que veio dentro de mim e que, infelizmente, eu não sei abrir e fechar - é quase como se ela tivesse vida própria. Quando ela está aberta, eu sinto em mim todos os males do mundo. É como diz Drummond de Andrade: essa caixinha abre e, então, tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo. Eu sou capaz de sentir a dor de alguém apenas por olhar em seus olhos. Eu sou capaz de captar os sentimentos dos olhos e o que olham os sentimentos. Dói em mim ver a dor do outro, mesmo que o outro não tenha consciência da própria dor. E aí, eu quase que sou tudo e todos. Quando essa caixa está aberta, eu quase sou a puta que vende o corpo por alimento e por não ter chance, que se acostumou tanto com isso de ser usada e jogada fora que já quase acredita mesmo que seja um objeto. Quando essa caixa está aberta, eu quase sou o gay que não é aceito e que não consegue se aceitar, que tenta não ser o que é, que se acha errado, fora do lugar. Quando essa caixa está aberta, eu quase sou a mulher que apanha todo dia e que não vai embora porque tem filhos e dependência financeira. Quando essa caixa está aberta, eu quase sou o menino sem pai que perdeu o avô e não tem mais ninguém, que chora sozinho com um animal de estimação, mas que tem que continuar sendo forte pro resto da família. Quando essa caixa está aberta, eu quase sou a gorda que vomita após toda refeição, que ouve que precisa emagrecer por questão de saúde, que é vista como preguiçosa, descuidada, desgrenhada. Quando essa caixa está aberta, eu quase sou a negra de cabelo crespo que ouve que racismo não existe no Brasil, mas que também ouve que toda negra fode bem. Quando essa caixa está aberta, eu quase sou alguém num corpo que não é seu, com o qual não se identifica, sendo obrigada/o a viver em padrões impostos por esse corpo e querendo fugir do que disseram que sou. Quando essa caixa está aberta, eu quase sou a mãe-de-santo apedrejada e chutada, porque "chuta que é macumba". Quando essa caixa está aberta, eu quase sou o idoso que é um estorvo para a família, que é rechaçado e jogado num asilo, e que fica lá, sozinho, até o resto dos seus dias, com os dedos dos pés cheios de teias de aranha. Quando essa caixa está aberta, eu sou uma criança com leucemia, e também sou seus pais e sua dor. Quando essa caixa está aberta, eu quase sou um menino de rua, invisível a não ser que se trate de suspeita de roubo, faminto e em constante fuga (de quê?). Quando essa caixa está aberta, eu quase sou um alguém que não tem expectativas, não tem vontade de viver, que entra em pânico por coisas que qualquer um acha bobeira, que precisa de calmante, de remédio, que é transtornado e não é entendido (mas eu quase entendo você, viu? Estou aqui para que compartilhe a sua dor). Quando essa caixa está aberta, eu posso quase ser qualquer um que sofre de qualquer dor profunda, seja lá de onde venha essa dor. Eu quase viro eu mesma uma dor sem fim, quando essa caixa está aberta.
Mas, se você conhece um pouquinho sobre essa caixa de Pandora que eu tenho dentro de mim, sabe que, também quando ela está aberta, sobra uma coisinha lá no fundo. Uma estrelinha faiscante, cheia de uma luz dourada, que me faz me sentir eternamente agradecida por poder ser dona dessa caixa. Se você conhece a história, sabe que na caixa ainda está a esperança. A última que morre. Lá no fundo da caixa. Como um tesouro enterrado. Assim como eu posso ser a dor mais pura, eu posso ser a esperança mais profunda. Como dona de uma caixinha dessas, é isso que eu represento para o mundo: eu vim trazer a esperança. Ser um empata, é sofrer junto com o mundo, mas também é trazer a ele uma luz única e irradiante. Não é tratar dessa dor que sinto como se fosse minha, não é desejar protagonismo numa luta, mas é estender uma mão a quem sofre e oferecer ajuda. É me conectar com sua dor, poder ver por sua perspectiva, sem julgamentos. É poder dizer: estou contigo, pelo simples motivo de que realmente estou.
Sim, tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo. Mas, dentro de mim, eu tenho essa estrelinha. Duas mãos e uma estrelinha são o bastante para lidar (e iluminar) o sentimento do mundo.

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Sobre balões e medos


Eram milhões de balões e, como todos os balões, no começo, eles não passavam de um plástico sem graça, sem vida, irrisórios. Esses eram ainda mais bobinhos: não tinham cor. Que balões eram esses, totalmente desprovidos de alegria? Esperavam pela magia. Quando viria ela preencher-lhes com o sopro da vida?
Os homens, que, ao contrário dos plásticos, tinham alma, encontraram-nos. Não sabiam que eram balões, claro, porque balões ainda nem existiam, mas sentiram despertar dentro de si uma curiosidade irreverente sobre aquilo que viam. Queriam criar e inovar, usar da feitiçaria do conhecimento para construir um sentimento puro que faria voarem aqueles materiaizinhos estranhos.
Contudo, eram humanos e humanos têm, em seu coração, medo. Um medo sufocante do novo; um terror ácido que corrói a vontade e a curiosidade; umas brumas densas de temor que envolvem o coração e cegam a visão; um horror que inutiliza o cérebro.
Não tiveram os homens ao menos a chance de ter um motivo pelo qual amedrontarem-se. Afinal, não puderam dar cor e ver as cores flutuando. Não puderam sentir a emoção de fazer o plástico virar balão – e, depois, o balão virar alegria. Pelo medo de perder o que vinha pela frente, perderam sentimentos singulares.
Perderam o céu azul salpicado de pontinhos coloridos. Perderam o contraste do plástico rosa, amarelo, laranja e verde nas nuvens de um branco tão puro. Perderam os raios solares fazendo com que as cores se acendessem ainda mais – e fazendo ascender dentro dos corações essa alegria que transborda do corpo e da alma. O medo estagnou o sentimento, assim como sempre estagna as pessoas. O medo que veio antes do próprio medo foi o mal dos homens, nessa história e em todas as outras, que não puderam dar vasão à sua criatividade e curiosidade.
No fim das contas, o ser humano não precisa ter por que temer – ele sempre arruma um motivo. Porque não ter medo amedronta mais do que tê-lo. Porque as possibilidades infinitas às vezes levam a uma sensação de possibilidade nenhuma. Porque é difícil criar, por mais que nossa alma clame pela invenção. Porque vislumbrar cores novas é só pra quem tem coragem de temer.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Cisne


A parede está rachada e as rachas todas riscadas de negro têm algo de vermelho, e vão parar num lugar cheio de sangue. Os riscos se convertem em um coração - o centro de tudo, um coração gordo e vermelho. Pulsante ou desenhado, tanto faz, ele é sempre real. Borrado ou sangrando, esse coração está chorando de qualquer maneira. Chorando minhas lágrimas de guache ou meu sangue escasso. Meu coração chora as lágrimas da minha mente e sofre as dores que ela projetou. Não seria mais fácil encarar as mentiras tuas, mente? Mas a parede está rachada e eu mesma estou curvada em sofrimento.
Cansei de lutar e minhas asas não se debatem mais, apenas descansam desconfortáveis em meu corpo triste. Triste toda a minha penugem branca, triste toda eu. Dilacerada por três espadas - três brilhantes espadas com punhos de ouro. E, parece-me, em uma delas espreita uma coruja. Ela grita à minha mente por sabedoria, mas minha mente está muito ocupada pensando e doendo. As espadas se cravam ainda mais em meu corpo desajeitado; o coração chora mais sangue que guache, pois que vejo sangue esparramado por todo o chão - a guache mais borra meus olhos que a parede.
Hoje o mundo me abandona e me deixa à sós com meu sangue, hoje o mundo trai toda a beleza que eu lhe trouxe com a minha graciosidade. Hoje toda a minha candidez é convertida em angústia. Como se eu não fosse forte, como se um cisne como eu não lutasse com ferocidade em frente a uma batalha. Mas agora estou sozinha: eu e minha dor; e eu não tenho ideia de como levar a cabo essa luta. Eu abaixo minhas asas, porque não sei lutar contra meus próprios pensamentos baixos. Eu abaixo a guarda, porque não consigo encarar tudo isso de frente. Sozinha, abandonada com meu maior inimigo: eu mesma. E, enquanto isso, meu coração chora...
Quem criou essas feridas senão eu mesma? Quem cravou essas espadas em mim senão minha mente traidora? Minha própria angústia e dor me trouxeram aqui, e eu ofereci meu coração em sacrifício a mim.
O mundo não me abandonou, o mundo não me traiu. Eu criei a minha solidão como proteção, eu traí a mim arrancando meu coração. O mundo apenas me deu a oportunidade de sangrar - e às vezes o sangramento é necessário para a cura. Essas lágrimas de guache me purificam de toda essa pintura falsa que fiz de mim. O sangue que fica é puro. E eu vou superar a dor, a angústia e a solidão. Vou abrir as minhas longas asas brancas e dançar novamente com um céu limpo e sem rachas.

Ilustração de Stephanie Law (3 de espadas do Shadowscapes Tarot). Texto inspirado no livro de apoio que acompanha o tarot.