quarta-feira, 13 de janeiro de 2016
Yin-Yang
Você é pai.
Você é pau.
Você é duro.
Você é homem.
Você é o masculino de nós.
Percebe que você é nosso yang?
Eu sou mãe.
Eu sou copas.
Eu sou maleável.
Eu sou mulher.
Eu sou o feminino de nós.
Percebe que eu sou nosso yin?
E por que comecei pelo yang?
Por que não comecei pelo yin?
Se o yin vem antes do yang na nomenclatura,
por que na vida o yang tem mais altura?
O homem urra, a mulher atura.
Esse é o tal equilíbrio de uma vida madura?
Ah, se os taoistas entendessem
se eles ao menos percebessem
mesmo que não dessem a devida atenção
que o feminino também é capaz de ação!
Que o yin só é passivo porque assim o fez
todo esse patriarcado descortês.
Ah, se o patriarcado entendesse
se ele ao menos percebesse
mesmo que então ficasse sem reação
que as feministas têm razão!
Que não dá pra viver em tanto desequilíbrio,
que o yin não é para o yang apenas ludíbrio.
E eu estou cansada de toda essa polarização.
Como vocês não vêem que não há divisão?
Que somos todos um, que gênero não é nada
E que essa causa precisa ser mais bem-tratada?
Por que tentativas de igualdade são males?
Vocês não vêem que a natureza vem aos pares?
Vejo hoje a magia se extinguir do mundo
e esse malgrado só pode ser do homem oriundo.
Como pode dominar os elementos o alquimista
se o feminino fica cada vez mais fora de vista?
A feitiçaria hoje é feita numa só perna
e até a sexualidade sagrada hiberna.
Mas eu sei que o yin pode lutar!
Eu sei que esse mundo ele pode conquistar!
Eu sei que as mulheres fazem mais do que chorar.
Eu vejo que elas vão à rua protestar.
Política elas fazem a própria vida virar.
E nossa magia elas vão, de novo, equilibrar.
segunda-feira, 4 de janeiro de 2016
Vou subir
Talvez que Mercúrio tenha errado o trajeto e esteja aqui à minha porta, apertando a campainha do tempo num tic-tac assustador. Talvez que seja Chronos vindo me cobrar o tempo perdido, ou Hermes cobrando que eu perca mais tempo. Talvez que seja a vida, finalmente, que me bate à porta. Pedindo pra que eu esqueça do Mercúrio e o largue retrógrado, que não dê atenção a Chronos e nem a Hermes. Talvez que seja um arquétipo de mim lá fora, esperando pra entrar em minha vida depois de toda essa vivência desiludida. Talvez que sejam todos de mãos dadas, ou talvez que não seja ninguém. Talvez que uma criança apertou a campainha e saiu correndo. Talvez que eu tenha apertado a campainha da minha vida, e me escondido com medo. Talvez que esse barulho que ouço sejam só as engrenagens meio enferrujadas da roda da vida. Talvez que as Moiras tenham vindo me avisar de que ela vai girar: vai descer ou vai subir? Talvez que seja uma mudança, pois coisas estáticas não permitem tantos talvez. Talvez que eu esteja ouvindo coisas, mas é bom um barulho que tire a alma do silêncio de vez em quando.
Talvez que Mercúrio tenha errado o trajeto e achado mais retrógrada a minha vida do que o seu caminho. Veio Chronos pra avisar que o tempo engole se a gente não age, que o que foi não volta. E Hermes, que corrigindo, disse que mesmo que o tempo tenha sido perdido, sempre há tempo pra tudo. Eu de dentro ouvi e fui pra fora, bati em mim mesma, e não consegui abrir a minha própria porta. Saí correndo, com medo, escondi. As Moiras vieram então avisar que não dá pra se esconder do destino.
Vou subir.
sexta-feira, 1 de janeiro de 2016
Tinto e tinta no branco
Todos zanzeiam por aí brancos. É uma branquidão que dói o olho e enjoa a vista - enjoa a alma e faz tudo parecer pastoso. Os meus olhos o vinho tinge de confusão. As lágrimas talvez os embacem. Mas é tanto branco misturado com tanto vinho e a confusão fica tanta que tudo só parece pastoso demais. E aí nem sei se choro ou se Yemanjá veio me visitar os olhos - trazer um pouco de azul, odoya! Parece-me que está tudo tão distante que nem com uma lupa eu seria capaz os olhos das pessoas, as almas se escondem no branco. O branco parece conversar com o branco ao meu redor, e eu só espero que o negro da noite os consuma a todos em suas besteiras falantes.
Não sei se estou reclusa ou rabugenta, mas não estou pessimista. Não, certamente não pessimista. Estou feliz em mim - na minha falta de branco. Estou feliz em olhar pra dentro e ter toda uma cartela de cores. Estou feliz em não ter que escolher entre elas. E estou feliz por tudo estar tão distante a ponto do branco ser incapaz de diluir meu colorido. Obrigada pela tinta, caneta, vinho tinto. Obrigada, mãos, por desenharem as palavras com tanta leveza no papel, mesmo que meu coração se tinja tanto e tão rápido e precise tanto vir a tingir a página com a urgência tanta dos embriagados.
Estou reclusa, em meditação. A minha volta, o mundo acontece. Dentro de mim, eu aconteço. Olhos vagando, alma fincando raízes e florindo. Chega de branco! Mil flores, mil cores. Eu quero os amores! Fui tão tingida pelo vinho que hoje quero tingir todo esse branco de escarlate, desejar sem pudores. Parada, meditei em mim e viajei tão longe que pude, enfim, encontrar na mente o carmim. Estática, percorri quilômetros. Enquanto, a minha volta, o mundo borbulha clamores vagos, desejos opacos, vida tão branca... Eu sou explosão de aromas, viajo entre-mundos, tiro da alma um fungo, e ainda nas lágrimas mergulho tão fundo... Afinal, choro ou Yemanjá que veio visitar meus olhos? Minha alma que visitou a mim. Transbordo o mar que encontrei em mim, enfim.
Tinto e tinta. Escrevo e embriago. Parada em voo pleno.
Rojões. 2016. Bom princípio de ano. Quantas cores o ano reserva em seu plano?
sexta-feira, 4 de dezembro de 2015
De casulo à lua: um processo
Alguns processos são feitos em vista do fim. O meu é feito pra sair do começo - esse lugar opaco e intransigente, onde tudo flutua oco e nada acontece. E sair do começo significa embarcar numa jornada surpreendente - é essa jornada que me apetece.
Antes, era como se eu estivesse no marasmo, observando um sol que cruzava a linha do horizonte, mas não se punha. Os mistérios da noite se achegavam a mim, mas eu era incapaz de cruzar a linha do consciente. Eles se achegavam, se acomodavam, me perturbavam, e não se mostravam. Estavam ali, com certeza, zunindo, mas quando eu os procurava querendo dissecá-los, já não estavam.
Foi quando uma borboleta branca me despertou do marasmo. Voou por entre meus cachos, meus braços, minhas pernas. Se insinuando aos meus olhos e ao meu sexo, à minha mente e à minha voz. Querendo fazer borbulhar em mim tudo o que não estava desperto. Ela se insinuava delicada, não trazendo tumulto e confusão, mas uma curiosidade que dava pontadas no meu coração. E eu comecei a persegui-la. Primeiro sem muito jeito com os movimentos (imagine, se eu que estive tanto tempo parada conseguiria de começo dançar a dança de uma borboleta!), e fui adquirindo leveza. Primeiro, era um trabalho árduo, uma tarefa difícil. Depois, era só sorriso. Hoje acho que até peguei a manha: o gingado e a delicadeza da dança se insinuam no meu corpo como se eu mesma tivesse asas e fosse borboleta. Será que antes eu era casulo?
Persigo meus objetivos como quem persegue uma borboleta. Não quero tê-la entre os dedos, quero aprender seus movimentos, dançar sua dança. Gosto de vê-la livre, bela pelos ares. E quero também eu ser livre, bela pelos lares que a vida quiser pôr em meu caminho. Que os sentimentos sejam isso: lares e não prisões. E que os ares que eu voe não me deem sermões. Que me deem descobertas e, quem sabe, corações. Mas agora o que importa é meu coração: é o meu voar, o meu dançar, o meu mergulhar profundo nos mistérios dessa noite que eu sou.
O sol estático que eu achei que se punha, hoje brilha à pino. E eu sou sua lua - refletindo seu brilho.
domingo, 29 de novembro de 2015
LUTA (assim na Terra, como no céu)
O asfalto é muito quente pra pisar;
A lama é muito espessa pra arriscar;
A igreja não é acolhedora pra rezar;
E até esse Deus distante parece se revoltar.
Mudança!, a natureza implora.
Empatia!, a mente explora.
União!
Pede alguém que mora
No meio dessa cisão.
O mundo parece um lugar violento,
Mas a gente tem voz, força e talento
Pra tirar essa situação do relento.
E não pense que lutamos contra moinhos de vento!
A natureza do ser humano
Roga por um plano
Que seja diferente.
Que não deturpe nossa mente
Com um medo evidente.
Porque o medo emudece,
Quando a gente tem que gritar.
O chão ele aquece,
Para que não ousemos pisar.
O coração ele endurece,
Para que sejamos incapazes de lutar.
Mas a alma se enfurece,
E a gente resolve mudar.
Ao contrário do que o medo quer,
A gente dá as mãos, a gente se une,
E aí a gente consegue pisar em lugar qualquer
Que a gente quiser.
Asfalto, lama, o que vier.
A gente caminha pra mudança
E consegue como quem dança
Fazer de um jeito que a injustiça balança
E com a luta a empatia nos alcança.
A gente vence o medo e faz a diferença
Pra acabar com essa miséria que parece de nascença.
Assim na Terra, como no céu.
Do micro pro macro, existe um réu.
E daqui a gente faz um escarcéu
Para que a vida tenha mais gosto de mel.
quinta-feira, 22 de outubro de 2015
To do list de segunda-feira
Descartar a certeza
Não reconhecer o definitivo
Conjugar os dias no infinitivo
E deixar tudo pairando no ar
Para que se possa ser mar
Não programar
Não remediar
Não culpar
Mesmo que se sinta sem lar
Deixar a beleza inventar
Um novo refrão
Pra essa estranha canção
Que nada pode esfriar
Mesmo que pareça em vão
Dar passos sem sentido
Inventar um novo ruído
Arrumar um projeto louco
e logo trocá-lo por outro
Para a agenda não ser ácida
Mesmo que fique muito plácida
Dançar pra lá
Com o vento pra cá
Os pés no chão
E a cabeça claro que não
O disco tem que ser trocado
Mesmo que o fim pareça malogrado
É que na vida não tem maldição
Tem só essa tradição
Meio neurótica
De seguir numa estrada caótica
Uma só direção
Mesmo que abra-se mão da emoção
Eu vou de pés descalços e já não ligo se piso no granizo ou no asfalto, na relva ou na selva, na grama ou na lama, na praia ou no breu. Eu piso. Porque embaixo dos meus pés o chão se cria ao meu passo. E em meu próprio embalo eu me embaraço, já que quando de antemão espero a escuridão, pro oposto me leva o alazão da vida, desde que eu defina meu coração como ponto de partida.
segunda-feira, 12 de outubro de 2015
Dia de outra vi(n)da
Lágrimas de álcool envenenadas
dores que não foram sanadas
na penumbra entre morte e vida
com desequilíbrio ela lida
com a melancolia meio esquecida
meio que sendo relida
sua antiga investida
agora se revolta
se volta
contra ela
moça singela
E de dor revestida
a lembrança vem travestida
de morte
Na minha mente foi um corte
que me levou pra nova sorte
construída pela quase morte
me fez mudar o enredo
desse segredo
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