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sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

De casulo à lua: um processo



Alguns processos são feitos em vista do fim. O meu é feito pra sair do começo - esse lugar opaco e intransigente, onde tudo flutua oco e nada acontece. E sair do começo significa embarcar numa jornada surpreendente - é essa jornada que me apetece.
Antes, era como se eu estivesse no marasmo, observando um sol que cruzava a linha do horizonte, mas não se punha. Os mistérios da noite se achegavam a mim, mas eu era incapaz de cruzar a linha do consciente. Eles se achegavam, se acomodavam, me perturbavam, e não se mostravam. Estavam ali, com certeza, zunindo, mas quando eu os procurava querendo dissecá-los, já não estavam. 
Foi quando uma borboleta branca me despertou do marasmo. Voou por entre meus cachos, meus braços, minhas pernas. Se insinuando aos meus olhos e ao meu sexo, à minha mente e à minha voz. Querendo fazer borbulhar em mim tudo o que não estava desperto. Ela se insinuava delicada, não trazendo tumulto e confusão, mas uma curiosidade que dava pontadas no meu coração. E eu comecei a persegui-la. Primeiro sem muito jeito com os movimentos (imagine, se eu que estive tanto tempo parada conseguiria de começo dançar a dança de uma borboleta!), e fui adquirindo leveza. Primeiro, era um trabalho árduo, uma tarefa difícil. Depois, era só sorriso. Hoje acho que até peguei a manha: o gingado e a delicadeza da dança se insinuam no meu corpo como se eu mesma tivesse asas e fosse borboleta. Será que antes eu era casulo?
Persigo meus objetivos como quem persegue uma borboleta. Não quero tê-la entre os dedos, quero aprender seus movimentos, dançar sua dança. Gosto de vê-la livre, bela pelos ares. E quero também eu ser livre, bela pelos lares que a vida quiser pôr em meu caminho. Que os sentimentos sejam isso: lares e não prisões. E que os ares que eu voe não me deem sermões. Que me deem descobertas e, quem sabe, corações. Mas agora o que importa é meu coração: é o meu voar, o meu dançar, o meu mergulhar profundo nos mistérios dessa noite que eu sou.
O sol estático que eu achei que se punha, hoje brilha à pino. E eu sou sua lua - refletindo seu brilho. 

domingo, 29 de novembro de 2015

LUTA (assim na Terra, como no céu)



O asfalto é muito quente pra pisar;
A lama é muito espessa pra arriscar;
A igreja não é acolhedora pra rezar;
E até esse Deus distante parece se revoltar.

Mudança!, a natureza implora.
Empatia!, a mente explora.
União!
Pede alguém que mora
No meio dessa cisão.

O mundo parece um lugar violento,
Mas a gente tem voz, força e talento
Pra tirar essa situação do relento.
E não pense que lutamos contra moinhos de vento!

A natureza do ser humano
Roga por um plano
Que seja diferente.
Que não deturpe nossa mente
Com um medo evidente.

Porque o medo emudece,
Quando a gente tem que gritar.
O chão ele aquece,
Para que não ousemos pisar.
O coração ele endurece,
Para que sejamos incapazes de lutar.
Mas a alma se enfurece,
E a gente resolve mudar.

Ao contrário do que o medo quer,
A gente dá as mãos, a gente se une,
E aí a gente consegue pisar em lugar qualquer
Que a gente quiser.
Asfalto, lama, o que vier.
A gente caminha pra mudança
E consegue como quem dança
Fazer de um jeito que a injustiça balança
E com a luta a empatia nos alcança.
A gente vence o medo e faz a diferença
Pra acabar com essa miséria que parece de nascença.

Assim na Terra, como no céu.
Do micro pro macro, existe um réu.
E daqui a gente faz um escarcéu
Para que a vida tenha mais gosto de mel.

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

To do list de segunda-feira


Ver a vida com mais leveza
Descartar a certeza
Não reconhecer o definitivo
Conjugar os dias no infinitivo
E deixar tudo pairando no ar
Para que se possa ser mar

Não programar
Não remediar
Não culpar
Mesmo que se sinta sem lar

Deixar a beleza inventar
Um novo refrão
Pra essa estranha canção
Que nada pode esfriar
Mesmo que pareça em vão

Dar passos sem sentido
Inventar um novo ruído
Arrumar um projeto louco
e logo trocá-lo por outro
Para a agenda não ser ácida
Mesmo que fique muito plácida

Dançar pra lá
Com o vento pra cá
Os pés no chão
E a cabeça claro que não
O disco tem que ser trocado
Mesmo que o fim pareça malogrado

É que na vida não tem maldição
Tem só essa tradição
Meio neurótica
De seguir numa estrada caótica
Uma só direção
Mesmo que abra-se mão da emoção

Eu vou de pés descalços e já não ligo se piso no granizo ou no asfalto, na relva ou na selva, na grama ou na lama, na praia ou no breu. Eu piso. Porque embaixo dos meus pés o chão se cria ao meu passo. E em meu próprio embalo eu me embaraço, já que quando de antemão espero a escuridão, pro oposto me leva o alazão da vida, desde que eu defina meu coração como ponto de partida.

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Dia de outra vi(n)da

Lágrimas de álcool envenenadas
dores que não foram sanadas
na penumbra entre morte e vida
com desequilíbrio ela lida
com a melancolia meio esquecida
meio que sendo relida
sua antiga investida
agora se revolta
se volta
contra ela
moça singela
E de dor revestida
a lembrança vem travestida
de morte
Na minha mente foi um corte
que me levou pra nova sorte
construída pela quase morte
me fez mudar o enredo
desse segredo

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

O sangue da lua marciana



Eu to sangrando o sangue sagrado
que também a lua sangrou.
E, se esse sangue escorre de meu ventre,
é porque a lua transita no signo marciano
como no dia que nasci,
e vem me dizer para que combata.
O sol pede equilíbrio e bom senso,
mas a lua não acata.
E, nessa dança entre luz sibilante
e sombra brilhante,
eu sou convidada a olhar contente
a minha própria dualidade latente.
Do breu, pode nascer uma ariana
guerreira de coração e vulva virgens,
que sangra o sangue da lua e que,
longe de temê-lo,
agradece por tê-lo
escorrendo em sua coxa marcada
da luta antes travada
com a escuridão.
Essa guerreira não anda mais em sofreguidão.
Ela dança na noite como dançaria no dia,
porque resolveu ter a ousadia
de fazer do próprio coração moradia.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Primavera

Acordei com a luminosidade do sol da manhã a bater gentilmente na janela. Ao abri-la, contemplei um novo mundo: era primavera. O céu exibia um azul quase que mágico, sem nuvens, iluminado pelo brilho irreverente do sol que, majestoso, espalhava seus raios com tranqüilidade, como criança sonolenta que estica os braços ao acordar. O bocejo delicado do bebê era a brisa fresca que vinha saldar-me a fronte. As folhas bem verdes como que dançavam ao vento e seu singular farfalhar se misturava com a melodia dos pássaros. As flores adornavam a visão e dela eram símbolo: cores e fragrâncias não faltavam.
Descobri-me grata pela sensibilidade de que fui dotada. Agradeci por ter olhos para ver, ouvidos para ouvir, mente para entender, coração e alma para sentir. Agradeci pela sensação libertadora que me inundava o espírito e, com um sorriso sincero desenhado nos lábios, fui conferir o que era feito da vela verde e do incenso, ambos acesos no dia anterior.
Da vela restou a parafina endurecida, mas eu sabia que aquela luz estonteante e quase mágica de áurea esverdeada irradiaria em minh’alma durante toda a primavera, concedendo-me o magnetismo que me é singular e a força e esperança tão necessárias ao meu espírito. Lembro-me de minhas palavras ao proclamar aquela oração que se destinava, acima de tudo, à minha tão cara Natureza: “Conceda-me o que me é necessário, pois sabes melhor do que eu”. Sei, portanto, estar em boas mãos. Sei também que a essência do incenso perfumará meus dias: as tristezas e as alegrias. Do pó que restou, retorna a lembrança das brumas perfumadas que me envolveram na ocasião e daquela sensação de que o espírito se desprendera do corpo e agora voava, entre as estrelas que cobriam a noite clara, em direção à lua que, como sempre, me sugava aos seus encantos.
Era, enfim, primavera. A tempestade cessara e agora vinha o arco-íris: com toda sua graça e exuberância, tecer de cores infindas nossas vidas. Assim como desabrocham as flores, abriam-se os corações ao Amor mais puro – essa força incompreensível que nos move, que é a essência da vida e de tudo que se há de viver. As almas preparavam-se para encontrar a luz da Verdade e desvendar as brumas do Mistério. Mas era principalmente o amor que, junto com as rosas, desabrochava.
Eu, qual fosse flor, desabrochava-me também.
Era, enfim, primavera.

Escrito no dia 21/09/2012

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Rosas, pérolas e diamantes


Quinze anos. Hoje completo quinze primaveras, tantas outras alegrias, quantas flores quanto possível. E as lágrimas transformam-se senão em brilhantes, ao menos em pérolas. Guardo tais preciosidades no coração, e elas engrandecem minha candidez – as pérolas e as rosas. As brancas e os diamantes adornam a alma, aumentam meu brilho e meu perfume. Minha essência vai, a cada dia, ficando mais rica – de conhecimento (e aqui entram as tristezas e dores, os sofrimentos que nunca são em vão), experiência e felicidades, colecionando amigos, risos e prazeres. Meu magnetismo pessoal cresce proporcionalmente ao número de sorrisos que esboço – e eu aprendi a sorrir, verdadeiramente, apesar dos pesares. Afinal, pérolas e diamantes não são nada mal.
Mas eu gosto mesmo é das flores – as rosas, principalmente. Com suas pétalas suaves que exalam perfume e beleza sem igual, uma delicadeza quase que surreal. Uma pureza inigualável e inegável, contagiante. É a essência que mais me encanta: não lhe parece que inalar tal encanto impregna o espírito de uma magnificência estranha aos homens e tão comum na natureza? A mim parece. E com minhas rosas, faço uma chuva de pétalas.
É claro que pérolas e diamantes também são necessários e queridos. Mas não esses diamantes brutos que adornam dedos, ouvidos, pescoços e pulsos. Quero aqueles lapidados que ornamentam a alma. Quero as pérolas que custaram tanto para sair da ostra. A dor e as lágrimas que nos engrandecem. E, enlaçando minh’alma com seu brilho fatídico, as pedras preciosas vão se acumulando, assim vou eu ganhando facetas harmoniosas e contrastadas.
O meu Eu vai, dessa forma, se tornando equilibrado e inconstante, cheio de ímpetos e de rotinas. Eu sou única, como somos todos. E a minha singularidade vai além da aparência e da personalidade. A consciência de tal não mais me amedronta: agora me anima.
Eu sou única, com tudo o que me faz diferente.
Pela primeira vez, não digo, grito: “Eu amo ser diferente”.

Escrito no dia 16/09/2012.