Talvez que Mercúrio tenha errado o trajeto e esteja aqui à minha porta, apertando a campainha do tempo num tic-tac assustador. Talvez que seja Chronos vindo me cobrar o tempo perdido, ou Hermes cobrando que eu perca mais tempo. Talvez que seja a vida, finalmente, que me bate à porta. Pedindo pra que eu esqueça do Mercúrio e o largue retrógrado, que não dê atenção a Chronos e nem a Hermes. Talvez que seja um arquétipo de mim lá fora, esperando pra entrar em minha vida depois de toda essa vivência desiludida. Talvez que sejam todos de mãos dadas, ou talvez que não seja ninguém. Talvez que uma criança apertou a campainha e saiu correndo. Talvez que eu tenha apertado a campainha da minha vida, e me escondido com medo. Talvez que esse barulho que ouço sejam só as engrenagens meio enferrujadas da roda da vida. Talvez que as Moiras tenham vindo me avisar de que ela vai girar: vai descer ou vai subir? Talvez que seja uma mudança, pois coisas estáticas não permitem tantos talvez. Talvez que eu esteja ouvindo coisas, mas é bom um barulho que tire a alma do silêncio de vez em quando.
Talvez que Mercúrio tenha errado o trajeto e achado mais retrógrada a minha vida do que o seu caminho. Veio Chronos pra avisar que o tempo engole se a gente não age, que o que foi não volta. E Hermes, que corrigindo, disse que mesmo que o tempo tenha sido perdido, sempre há tempo pra tudo. Eu de dentro ouvi e fui pra fora, bati em mim mesma, e não consegui abrir a minha própria porta. Saí correndo, com medo, escondi. As Moiras vieram então avisar que não dá pra se esconder do destino.
Vou subir.





