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segunda-feira, 20 de julho de 2015

A Temperança

De um cálice, para outro. De um cálice, para outro. O prateado, o dourado. O prateado, o dourado. E, de repente, um cale-se! gritado, ordenado, mandado.
- Cuidado, senhora, teu grito enche a Terra de terremotos.
- A Terra é meu domínio e dela cuido eu, cuide tu do teu.
Sem cantar, de preferência - dizia seu olhar. E Íris era realmente boa em escutar. De um cálice, para outro; e agora sem cantar - tudo o que a Senhora ordenar. E a Senhora ordenava coisas com as quais Íris realmente não queria ajudar. Mensagens que ela não tinha vontade de entregar. Mas, de um cálice para outro jorrava o sentimento do mundo, e ela não podia parar. Assim, todas as mensagens que Hera enviava à Terra chegavam com um arco-íris - viessem depois de uma chuva de verão ou de uma tempestade, traziam as cores como brinde. Os Deuses, lá no Olimpo, tinham sorte maior: o sorriso fácil e os gestos meigos da Íris. Íris era a harmonia entre opostos, a bênção de um olhar calmo.
- Temperança, minha Senhora - ela lembrava.
- Vingança, minha Serva - Hera implorava.
Íris, arco-íris; Hera, a terra. Íris toda paz; Hera toda fera. Feita de sete cores e Temperança, Íris é harmonia até mesmo na vingança.

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Sabotagem a uma Imperatriz



Disseram-me que não.
E por que raios iria eu pensar no que disseram?
Disseram-me que não era bom.
E por que raios tenho eu que querer o bom?
Disseram-me que eu era boa.
E por que raios iria eu aceitar tal dom?
Disseram-me que isso magoa.
E, no fundo, eu achava que merecia.

Era feito apenas de matéria, tão impuro.
E minha intuição sabia que era inseguro.
Era o que eu queria, mas era miragem.
E não era o que eu queria, sabotagem.
Meu coração ardia à margem.
O importante era a vulva: sacanagem.

Puta burrice o que eu sentia.
Puta mesmice o que eu vivia.
Puta eu sem minha luz que irradia.
Meu ego sempre me reduz,
Mas eu tenho essa luz.

Sem pregar peças, psique.
Agora, sem verso, digo no talo: eu não vou pro ralo. Eu não sou um galo, pra ficar cantando alegria e morrendo por dentro. Chega de auto-sabotagem. Chega de rima triste. Chega de pensamento surrupiante. Chega de dor sussurrante. Chega de mascarar com alegria o que na verdade é meu espírito gritando, meu instinto inflamando: Não quero o que não é bom! Eu aceito esse dom! Não mereço nada menos que esse tom. Esse tom ameno e feliz, que não ignora a dor, mas se sente merecedor de ser imperatriz.

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Tabu


Fizeram de mim um tabu. Fizeram da minha vagina um segredo - logo ela que me faz querer gritar. Fizeram do meu amor arfante uma luxúria - e eu que achava que amar era tudo de melhor que tinha no mundo. Disseram que eu não poderia me tocar, mas quando disseram já era tarde demais - eu já havia me apaixonado por mim mesma. Fizeram do meu sangue sagrado um pecado, mas me ensinaram a agradecer quando ele viesse. E eu agradeço, mas chamariam-me de herege se eu lhes contasse o porquê. 
Fizeram de mim um tabu, mas não compactuo com ele. Graças às Deusas todas, não sou boa nisso de ser o que querem que eu seja. Graças a Afrodite, Hera e Lilith, amo-me. Toco-me, deliro-me, excito-me. Desato os nós que a mim ataram desde que nasci e, nua dessas - essas sim - superstições, rebolo no envolvente embalo de mim mesma.
Despida dos padrões, o espelho me apetece tanto que não posso - e nem quero - evitar um sorriso que vem do mais fundo da alma. Um olhar delirante de reconhecimento do Sagrado Feminino intrínseco, não em meu corpo, mas no mais fundo do meu ser. Não posso me olhar senão com lascívia, já que represento a mim mesma toda a sensualidade, toda a beleza e engenhosidade própria da natureza. Não posso evitar encher os olhos negros do mistério da luz da lua, nem posso evitar que meu ventre sinta-se digno de ser comparado com a própria terra. Não posso, não consigo, enojar-me do meu sangue. Não posso evitar ser mulher, já que a magia do feminino me possui toda. Como posso, então, evitar tocar-me?
Afrodite ama; Hera traz à luz; Lilith prefere ficar por cima. Eu toco-me. 
Faço-me Deusa ao amar-me e ao reconhecer que ser mulher é, afinal de contas, ser o que quer que seja.
Menina, faça-te Deusa. Despe-te de todo tabu. Torna-te mulher sendo o que és.
Toca-te.

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Quando a insulina dói


O negrume sai do pâncreas,
Se alastra pela alma,
Sobe a garganta,
Quando sai pela boca
É como uma mão
Que arranca o coração.

Mas o coração, persistente,
Não se entrega
Assim tão facilmente
E então carrega
Quase que diariamente
Essa dilacerante sensação.

E o pâncreas...
Junto com a alma,
Junto com a prece,
O pâncreas apodrece.

sábado, 30 de maio de 2015

Paris se prepara para retirar 45 toneladas de "cadeados do amor"

Ela leu o título em voz alta, baixa, média, pelo menos umas dez vezes. E, embora a altura da voz mudasse, sua tonalidade tinha a mesma incredulidade e seus olhos pareciam igualmente assustados todas as vezes que entoou as palavras. Ah, os cadeados do amor... Ainda se lembrava de quando seu amor foi trancafiado em um desses. Ainda se lembrava da ponte, do olhar e do trancar. Do estancar de si.
Os cadeados começaram a pesar e a ponte ameaçou ruir. Hora de se livrar desse peso. Hora de partir as amarras. Libertar-se dos grilhões.
O amor não devia pesar. A ponte não devia ruir.
De onde é que tiraram que o amor pode ser um cadeado?
De onde é que tiraram que a gente tem que prender um sentimento tão bonito?
E o que é que esses tais prisioneiros fizeram com as chaves de suas próprias prisões, eu me pergunto. Jogaram no ar, no mar, no horizonte, ou guardaram no peito, pendurado no pescoço? Jogaram de encontro com a lua, ou trancafiaram (também a chave?) dentro de algum baú?
As pessoas têm tanto medo assim de amar que tudo tem que ser assim tão guardado?
Sentimento não pode fluir - é perigoso, tem que estancar. Carinho não pode só sorrir, tem que declarar. E pra declarar tem que trancar - tem que ter cadeado em Paris pra selar o amor. O amor tem que ser selado, guardado, trancafiado dentro da gente. Amor livre? Que isso, o amor é compromisso a ser mantido. Amor é posse e tu és minha e eu sou teu e nosso sentimento é um cadeado.
Mas aí começa a pesar e a ponte ameaça ruir. E agora? Amor livre? Não, amor com posse.
Bem, sendo assim, não posso.
Porque pra mim - e também pra ela que leu o título - a ponte que é ideal. O sentir. E a minha ponte é que não vai cair por uma questão de propriedade! Amor livre? Livre-se do resto. Amor só pode ser livre - a liberdade que define o amar, o resto é compromisso.
Sobre nossa personagem: o que eu não contei sobre ela é que, apesar do tom da voz e do olhar, os lábios sorriam. Sua voz entoava a liberdade, assim como o título da tal reportagem. Ela puxou o cordão que cruzava o seu peito - determinação em lugar de dor. Foi à janela. O sol se punha. Jogou a chave pelos ares, de encontro ao crepúsculo. E então toda a sua alma pôde apreciar o submundo de Ártemis, o arquétipo da Lua, o mundo interior em que sombra e luz se confundem, cheio de lacunas e penumbras. À luz da Lua, sua alma uivou como loba livre. Sua vulva desabrochou como rosa - avermelhada e com respingos de sereno.
Destrancou a alma. Os sentimentos estancados borbulhavam. 
Seus seios sem chave exaltavam: o amor é livre, meu bem.

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Macho que toma a voz

Olá, bom dia. É... Tipo assim.
Tipo assim.
Assim assado ou de outro jeito
Eu só me importo que é
E que sendo, bom...
Bom dia.
Olá, bom dia.

Mas a pergunta é se...
É que... Mas e se...
A pergunta é.
A pergunta sendo,
então existe questão.
E a questão é se...

Mãos balançam
Olhos para baixo
Não tem olho no olho
Tem pensamento vagando
Pensamento vagabundo
Mente tentando concentrar
E coração nervoso atentando.
Mãos nervosas, olhos sem pupila.

Voz calma que diz: pertinência.
Voz calma que sabe chamar a essência.
Voz calma que se impõe.
Sobrancelha.
Pertinente, sim, fala com pertinência.

Oi, bom dia.
Acordem que hoje é dia.
E o olhar cortante
E a energia penetrante.
E o silencio.
A pergunta nem foi respondida,
mas já que foi formulada...
Aí a questão existe.

Tava tudo bem até aí.
Não bem, mas ok.
Aí o macho resolve ser alfa,
tomar a voz que acostumou
como sendo sua.
Mas era dela.
Ela ela ela ela ela ela.
Ele cortou ela.
Porque ele queria que fosse
ele ele ele ele ele.
Mas o primeiro ela é Ela,
e ele só pode ser macho.

terça-feira, 19 de maio de 2015

Presente

Meu presente nem é físico para caber ou não nessa caixinha,
mas com certeza é mais valioso e com certeza cabe nesse sorriso.
Tento colocar o que sinto em palavras,
mas é inútil – é vago.
E eu não gosto de coisas ocas,
eu não gosto do eco.
 Eu gosto de sentir tudo em sua forma mais pura
– e é isso que faço agora.

Mas como comunicar o que se passa em meu coração?
Como explicar esse aperto bom, essa emoção?
Como explicar essa vontade de gritar
agradecendo o Todo por esse presente tão singular?

Agradecida, sr. Todo!
Mas agradecer não basta.
O Todo pode sentir a minha gratidão
– e isso sim ecoa de uma maneira bonita.
É um sentimento que vai se expandindo
e pode cobrir o meu mundo inteiro.
E, se o Todo sente, não tem porque pôr em palavras.
Não é ele que precisa ser constatado de tudo isso.
Afinal, ele também é tudo isso.

Mas “tudo isso” é o que – fora o Todo que é tudo?
Tudo isso é um sorriso que eu sorrio ao pensar nesse presente.
Tudo isso é o brilho dos meus olhos ao viver esse presente.
Tudo isso são as gargalhadas sem fim que esse presente me obriga a rir.
Tudo isso é o suspiro aliviado ao encontrar esse presente.
Tudo isso é o próprio presente emanando, fortificando.
Tudo isso nem cabe em mim, como pode caber nas palavras?

E é por isso que o sentimento desperto
é tão grande que não me cabe em mim.
Ele transborda.
E talvez essa seja a melhor definição:
Ágape existe – é aquele amor que transborda.
E esse amor é meu presente.
Esse presente é a amizade.

Obrigada, sr. Todo.